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INVASOR NO CASARÃO (primeiro conto do blog)

Eu estava lá. A manhã era fria e nebulosa, não havia ninguém naquela praça além de mim e alguns trabalhadores de uma construção próxima. ...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

INVASOR NO CASARÃO (primeiro conto do blog)


Eu estava lá. A manhã era fria e nebulosa, não havia ninguém naquela praça além de mim e alguns trabalhadores de uma construção próxima. Foi quando ele veio até minha direção, Edward estava com medo nos olhos e me alertou sobre continuar naquela rua sombria, queria ter ouvido o conselho dele, pois teria me salvado de muitos ossos quebrados, mas não me arrependo.
            Continuei andando com pressa, tinha escovado a cabeça antes de sair mas aquele frio fazia-os mudarem o penteado, não ligava, meus bigodes estavam arrumados e apenas isso me dava um sinal de segurança.
            Quando cheguei próximo ao fim da praça subi o muro do casarão abandonado, pressentia perigo em minha busca arriscada. Caí de pé do outro lado, sem me machucar, meus pés estavam firmes e eu continuei pela névoa. Latas se mexeram e correntes eram arrastadas próximas a mim fui e olhei em cima do ombro e não vi nada. Continuei andando desconfiado e com pressa, cheguei próximo a casa, a parede branca estava molhada pela chuva da madrugada de verão, procurei algo que facilitasse minha escalada e olhando para a esquerda percebi uma lixeira próxima a uma janela, subi e entrei esgueirando pela janela conseguindo adentrar a cozinha cuidadosamente aberta.
            Vasculhei com os olhos, nenhum sinal de vida ou luz, dei um pulo certeiro e cheguei no chão por onde fui cuidadosamente saindo daquele cômodo. Delicadamente abri a porta empurrando-a. Me via agora num grande corredor que terminava em uma escada alta e velha. Me locomovia silenciosamente observando as portas destrancadas dos dois lados do corredor, uma delas estava encostada e um homem de bigodes ruivos com uma arma ao lado dormia, passei com o dobro de cuidado por essa porta indo lentamente com a respiração quase parada assim como o coração. Meus olhos então captaram o primeiro degrau, um pano estava sobre ele. Subi a escada até a metade e o cheiro de algo a muito perdido começou a me envolver, sabia que estava perto de meu objetivo.
            Cheguei no topo da escada finalmente, uma única porta se erguia imponente, guardando o tesouro do outro lado. Empurrei-a com cuidado e após um ruído de ferrugem ela se abriu. Então vi. Algo que me pertencia e que eu tinha perdido lá a muito tempo, algo que muitos tentaram roubar e que agora eu iria possuí-lo novamente. Era aquilo que Francisca deixara na casa da última vez que tinha vindo, não entendia por que fizera isso, afinal era meu e com certeza ela tinha noção disso, pra que deixar com uma amiga que nunca se importara ou devolvera. Claro, aposto que ela forçou Francisca, mas isso não vem ao caso agora. Fui me aproximando do objeto cuidadosamente colocado entre duas caixas. Então o peguei. Nesse momento soltei um som enorme de felicidade, mas isso não durou muito tempo pois a luz ascendeu. Olhei com medo para a porta e lá estava o novo dono da casa com sua espingarda apontada para mim que acabara de rever minha tão querida posse há muito perdida. “Morra! Seu gato imundo!” ele disse e atirou em minha direção. Saí correndo com meu brinquedinho na boca, subi várias caixas desviando dos tiros então cheguei na janela e pulei. Não me toquei na hora, mas subitamente um cachorro enorme e negro apareceu, meu pelo ruivo arrepiou e eu arqueei, mas ele não parou de mostrar seus dentes sujos e imundos, só tive um reflexo me joguei contra ele mordendo sua orelha mas o canídeo conseguiu se desvencilhar de mim e me jogou no chão. Fui correndo com dificuldade enquanto aquela besta vinha na minha direção, finalmente cheguei ao muro, era mais alto do que parecia, mas consegui escalar novamente. Quando estava no topo vi o cachorro preso pela corrente impedindo que chegasse um metro do muro, mas ainda não estava livre completamente, o dono da casa estava apontando para mim, por um tris consegui escapar da bala e sair de cima do muro.
            Fui andando todo arranhado e machucado, porém vitorioso exibindo meu brinquedinho para os outros gatos que me viam. Quando cheguei em casa minha dona ficou feliz em me ver, Francisca reconheceu o brinquedo e se surpreendeu em revê-lo, na verdade revelou por ter levado para a escola um dia sem querer e quando fora na casa da amiga deixou cair. Não acredito muito nessa história dela ainda, mas não importa, ela é uma pessoa boa, boa até demais para mim. Mesmo assim naquele mesmo dia ela me levou no veterinário, tive de ficar enfaixado por um bom tempo, mas como já disse antes, não me arrependo de não seguir o alerta de Edward afinal o brinquedinho era meu por direito.

E fim.

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