Eu estava lá. A manhã era fria e nebulosa, não havia ninguém
naquela praça além de mim e alguns trabalhadores de uma construção próxima. Foi
quando ele veio até minha direção, Edward estava com medo nos olhos e me
alertou sobre continuar naquela rua sombria, queria ter ouvido o conselho dele,
pois teria me salvado de muitos ossos quebrados, mas não me arrependo.
Continuei andando com pressa, tinha
escovado a cabeça antes de sair mas aquele frio fazia-os mudarem o penteado,
não ligava, meus bigodes estavam arrumados e apenas isso me dava um sinal de segurança.
Quando cheguei próximo ao fim da
praça subi o muro do casarão abandonado, pressentia perigo em minha busca
arriscada. Caí de pé do outro lado, sem me machucar, meus pés estavam firmes e
eu continuei pela névoa. Latas se mexeram e correntes eram arrastadas próximas
a mim fui e olhei em cima do ombro e não vi nada. Continuei andando desconfiado
e com pressa, cheguei próximo a casa, a parede branca estava molhada pela chuva
da madrugada de verão, procurei algo que facilitasse minha escalada e olhando
para a esquerda percebi uma lixeira próxima a uma janela, subi e entrei
esgueirando pela janela conseguindo adentrar a cozinha cuidadosamente aberta.
Vasculhei com os olhos, nenhum sinal
de vida ou luz, dei um pulo certeiro e cheguei no chão por onde fui
cuidadosamente saindo daquele cômodo. Delicadamente abri a porta empurrando-a.
Me via agora num grande corredor que terminava em uma escada alta e velha. Me
locomovia silenciosamente observando as portas destrancadas dos dois lados do
corredor, uma delas estava encostada e um homem de bigodes ruivos com uma arma
ao lado dormia, passei com o dobro de cuidado por essa porta indo lentamente
com a respiração quase parada assim como o coração. Meus olhos então captaram o
primeiro degrau, um pano estava sobre ele. Subi a escada até a metade e o
cheiro de algo a muito perdido começou a me envolver, sabia que estava perto de
meu objetivo.
Cheguei no topo da escada
finalmente, uma única porta se erguia imponente, guardando o tesouro do outro
lado. Empurrei-a com cuidado e após um ruído de ferrugem ela se abriu. Então
vi. Algo que me pertencia e que eu tinha perdido lá a muito tempo, algo que
muitos tentaram roubar e que agora eu iria possuí-lo novamente. Era aquilo que
Francisca deixara na casa da última vez que tinha vindo, não entendia por que
fizera isso, afinal era meu e com certeza ela tinha noção disso, pra que deixar
com uma amiga que nunca se importara ou devolvera. Claro, aposto que ela forçou
Francisca, mas isso não vem ao caso agora. Fui me aproximando do objeto
cuidadosamente colocado entre duas caixas. Então o peguei. Nesse momento soltei
um som enorme de felicidade, mas isso não durou muito tempo pois a luz ascendeu.
Olhei com medo para a porta e lá estava o novo dono da casa com sua espingarda
apontada para mim que acabara de rever minha tão querida posse há muito
perdida. “Morra! Seu gato imundo!” ele disse e atirou em minha direção. Saí
correndo com meu brinquedinho na boca, subi várias caixas desviando dos tiros
então cheguei na janela e pulei. Não me toquei na hora, mas subitamente um
cachorro enorme e negro apareceu, meu pelo ruivo arrepiou e eu arqueei, mas ele
não parou de mostrar seus dentes sujos e imundos, só tive um reflexo me joguei
contra ele mordendo sua orelha mas o canídeo conseguiu se desvencilhar de mim e
me jogou no chão. Fui correndo com dificuldade enquanto aquela besta vinha na minha
direção, finalmente cheguei ao muro, era mais alto do que parecia, mas consegui
escalar novamente. Quando estava no topo vi o cachorro preso pela corrente
impedindo que chegasse um metro do muro, mas ainda não estava livre
completamente, o dono da casa estava apontando para mim, por um tris consegui
escapar da bala e sair de cima do muro.
Fui andando todo arranhado e
machucado, porém vitorioso exibindo meu brinquedinho para os outros gatos que
me viam. Quando cheguei em casa minha dona ficou feliz em me ver, Francisca
reconheceu o brinquedo e se surpreendeu em revê-lo, na verdade revelou por ter
levado para a escola um dia sem querer e quando fora na casa da amiga deixou
cair. Não acredito muito nessa história dela ainda, mas não importa, ela é uma
pessoa boa, boa até demais para mim. Mesmo assim naquele mesmo dia ela me levou
no veterinário, tive de ficar enfaixado por um bom tempo, mas como já disse
antes, não me arrependo de não seguir o alerta de Edward afinal o brinquedinho
era meu por direito.
E
fim.
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