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INVASOR NO CASARÃO (primeiro conto do blog)

Eu estava lá. A manhã era fria e nebulosa, não havia ninguém naquela praça além de mim e alguns trabalhadores de uma construção próxima. ...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A Feira de Sábado

Senhora N. nunca vira um dia mais quente.
Aquele ano estava especialmente quente, porém aquele dezembro estava, entre todos os meses de Dezembro de todos os anos, e entre todos os meses daquele ano, o mais quente, era algo insuportável; as janelas de todas as casas estavam abertas completamente e poucos estavam foras de casa devido à quantidade de Sol.
            Entre tanto, aquela senhora estava fora de casa. Estava fora de casa, pois não importava a temperatura lá fora, sempre ia à feira aos Sábados, e esse Sábado era especial, era o último Sábado antes do Natal.
            Nesse Natal, a senhora estava organizando um grande almoço para sua grande família. Todos os anos fazia algo parecido, mas nesse ano seria a mais; o motivo? Já fazia alguns anos que a sua família. inteira mudara de casa, mas nunca pararam para comemorar sobre isso. Afinal realizar uma mudança tão grande não era algo que se fazia todos os dias no mundo: ela, seu marido, as duas filhas do casal, o filho do casal, os dois cachorros, quatro cavalos e todas as crianças do orfanato.
            Sim, um orfanato! O senhor e a senhora administravam um orfanato para um número incontável de crianças, foi incrível como conseguiram mudar todas – com exceção de algumas já no estado de adoção, mesmo que poucas fossem adotadas –, o orfanato era um prédio alto, logo ao lado do curral dos cavalos, tinha uma cor meio avermelhada, mas era meio desbotado. Uma torre se erguia do telhado e era visível de todos os cantos daquela cidadezinha pacata.
            Mas que cidadezinha, nada de interessante acontecia nela. Mas isso não significava que o povo da cidadezinha fosse tão desinteressante quanto à cidadezinha. Havia o Senhor Assis, por exemplo, um homem tão alto quanto velho, já trabalhara com quase tudo, fora professor de biologia, de geologia, jornalista, cozinheiro, escritor e enfermeiro, mas quando já tinha seus 68 aposentou-se da profissão de enfermeiro no hospital da cidadezinha, não que fizesse qualquer diferença, o hospital era tão vazio quanto... algo muito vazio. Depois disso tornou-se – ainda para acrescentar à sua lista de profissões – apicultor e agricultor. Tinha uma pequena fazendinha não muito longe da cidadezinha, e – segundo os moradores – produzia o melhor mel de todos.
            O neto/assistente do Senhor Assis era o otimista Joaquim, um jovem feliz o tempo todo e responsável pelo transporte do mel. Adorava mexer com o mel, colocava-o nos potes, colocava os potes nas caixas e colocava as caixas no carro. Também gostava muito de dirigir o carro cheio da fazendinha até a cidadezinha. O caminho da fazendinha até a cidadezinha tinha muitas curvas, caminhos retos, subidas, descidas e ladeiras, mas o mel sempre chegava intacto à feirinha de sábado. Joaquim podia não ser uma pessoa muito letrada, mas era um homem jovem, cheio de vida e respeitoso, mas muitas vezes enxerido.
            A feirinha de Sábado era o maior evento periódico daquela cidadezinha, as únicas coisas que a superavam eram alguns dos concertos da escola da cidadezinha e as eleições para chefe do concelho da cidade, o cargo de mais alta honra e poder na cidade.
            Essa feirinha tinha como local fixo a praça central na frente da igreja matriz e do prédio do concelho da cidade, naquele dia as palmeiras estavam enfeitadas para o natal, eram palmeiras altas e verdes com luzinhas de todas as cores que acendiam de noite, alguns anjos feitos de papelão estavam distribuídos por toda a praça e as barriquinhas tinham cores “natalinas”.
            A barraquinha de Senhor Assis estava bem no círculo exterior da praça. Dentro da barriquinha apenas o senhor e seu neto/assistente trabalhavam, ainda estava cedo, mas muito quente, afinal era verão. Empilhavam a pilha com os frascos de mel quando a senhora chegou.
            – Bom dia, Senhor – falou a senhora com uma voz fina, aguda e velha.
            – Bom dia, Senhora – respondeu o senhor tirando o chapéu e fazendo uma reverência curta. – vai levar o de sempre?
            – Claro! – disse a senhora – mas vou querer três vezes mais.
            – Três!? – surpreendeu-se – Hoje vai cozinhar para um rei?
            – Para um rei não, mas para muitas pessoas.
            Joaquim depositou os frascos na sacola da senhora, pegou o dinheiro e colocou-o na caixinha.
            – Seu marido vai viajar de novo esse ano? – perguntou Joaquim.
            – Vai sim, ele nunca fica em casa por muito tempo, mas tenho que ir. – acenou para os dois e foi para outra barraca.
            Logo que a senhora saiu de vista Assis deu um tapa na orelha de Joaquim.
            – Não seja tão enxerido. – xingou o jovem.
            Joaquim com a orelha vermelha tentou defender-se.
            – Perdão, eu apenas acho estranho que alguém viaje tanto, ainda mais em feriados como o Natal, onde supostamente ele deveria ficar com a família.
            – Não o julgue, aposto que ele tem um ótimo motivo. – respondeu Assis ao neto/assistente.

            – Tem razão. Mas ainda acho o senhor Noel viajar tanto não muito natural.


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