Senhora N. nunca
vira um dia mais quente.
Aquele ano estava especialmente
quente, porém aquele dezembro estava, entre todos os meses de Dezembro de todos
os anos, e entre todos os meses daquele ano, o mais quente, era algo insuportável; as janelas de todas as casas estavam abertas completamente e poucos
estavam foras de casa devido à quantidade de Sol.
Entre
tanto, aquela senhora estava fora de casa. Estava fora de casa, pois não
importava a temperatura lá fora, sempre ia à feira aos Sábados, e esse Sábado
era especial, era o último Sábado antes do Natal.
Nesse
Natal, a senhora estava organizando um grande almoço para sua grande família.
Todos os anos fazia algo parecido, mas nesse ano seria a mais; o motivo? Já fazia
alguns anos que a sua família. inteira mudara de casa, mas nunca pararam para
comemorar sobre isso. Afinal realizar uma mudança tão grande não era algo que se
fazia todos os dias no mundo: ela, seu marido, as duas filhas do casal, o filho
do casal, os dois cachorros, quatro cavalos e todas as crianças do orfanato.
Sim,
um orfanato! O senhor e a senhora administravam um orfanato para um número
incontável de crianças, foi incrível como conseguiram mudar todas – com exceção
de algumas já no estado de adoção, mesmo que poucas fossem adotadas –, o
orfanato era um prédio alto, logo ao lado do curral dos cavalos, tinha uma cor
meio avermelhada, mas era meio desbotado. Uma torre se erguia do telhado e era
visível de todos os cantos daquela cidadezinha pacata.
Mas
que cidadezinha, nada de interessante acontecia nela. Mas isso não significava
que o povo da cidadezinha fosse tão desinteressante quanto à cidadezinha. Havia
o Senhor Assis, por exemplo, um homem tão alto quanto velho, já trabalhara com
quase tudo, fora professor de biologia, de geologia, jornalista, cozinheiro,
escritor e enfermeiro, mas quando já tinha seus 68 aposentou-se da profissão de
enfermeiro no hospital da cidadezinha, não que fizesse qualquer diferença, o
hospital era tão vazio quanto... algo muito vazio. Depois disso tornou-se –
ainda para acrescentar à sua lista de profissões – apicultor e agricultor.
Tinha uma pequena fazendinha não muito longe da cidadezinha, e – segundo os
moradores – produzia o melhor mel de todos.
O
neto/assistente do Senhor Assis era o otimista Joaquim, um jovem feliz o tempo
todo e responsável pelo transporte do mel. Adorava mexer com o mel, colocava-o
nos potes, colocava os potes nas caixas e colocava as caixas no carro. Também
gostava muito de dirigir o carro cheio da fazendinha até a cidadezinha. O
caminho da fazendinha até a cidadezinha tinha muitas curvas, caminhos retos,
subidas, descidas e ladeiras, mas o mel sempre chegava intacto à feirinha de
sábado. Joaquim podia não ser uma pessoa muito letrada, mas era um homem jovem,
cheio de vida e respeitoso, mas muitas vezes enxerido.
A
feirinha de Sábado era o maior evento periódico daquela cidadezinha, as únicas
coisas que a superavam eram alguns dos concertos da escola da cidadezinha e as
eleições para chefe do concelho da cidade, o cargo de mais alta honra e poder
na cidade.
Essa
feirinha tinha como local fixo a praça central na frente da igreja matriz e do
prédio do concelho da cidade, naquele dia as palmeiras estavam enfeitadas para
o natal, eram palmeiras altas e verdes com luzinhas de todas as cores que
acendiam de noite, alguns anjos feitos de papelão estavam distribuídos por toda
a praça e as barriquinhas tinham cores “natalinas”.
A
barraquinha de Senhor Assis estava bem no círculo exterior da praça. Dentro da
barriquinha apenas o senhor e seu neto/assistente trabalhavam, ainda estava
cedo, mas muito quente, afinal era verão. Empilhavam a pilha com os frascos de
mel quando a senhora chegou.
–
Bom dia, Senhor – falou a senhora com uma voz fina, aguda e velha.
–
Bom dia, Senhora – respondeu o senhor tirando o chapéu e fazendo uma reverência
curta. – vai levar o de sempre?
–
Claro! – disse a senhora – mas vou querer três vezes mais.
–
Três!? – surpreendeu-se – Hoje vai cozinhar para um rei?
–
Para um rei não, mas para muitas pessoas.
Joaquim
depositou os frascos na sacola da senhora, pegou o dinheiro e colocou-o na
caixinha.
–
Seu marido vai viajar de novo esse ano? – perguntou Joaquim.
–
Vai sim, ele nunca fica em casa por muito tempo, mas tenho que ir. – acenou
para os dois e foi para outra barraca.
Logo
que a senhora saiu de vista Assis deu um tapa na orelha de Joaquim.
–
Não seja tão enxerido. – xingou o jovem.
Joaquim
com a orelha vermelha tentou defender-se.
–
Perdão, eu apenas acho estranho que alguém viaje tanto, ainda mais em feriados
como o Natal, onde supostamente ele deveria ficar com a família.
–
Não o julgue, aposto que ele tem um ótimo motivo. – respondeu Assis ao neto/assistente.
–
Tem razão. Mas ainda acho o senhor Noel viajar tanto não muito natural.
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